sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A última reportagem da série mostra a vulnerabilidade dos jovens ao crack

Histórias de pais que perderam os filhos para as drogas e a lição de quem conseguiu combater a dependência

Da Redação do pe360graus.com

Na última reportagem da série “Pedra da Morte”, histórias de pais que perderam os filhos para o vício do crack, droga que leva apenas 15 segundos para chegar ao cérebro. Como o efeito dura apenas cinco minutos, o usuário acaba fumando mais uma pedra, gerando rapidamente dependência. Na luta pela recuperação, parentes de dependentes procuram ajuda nos grupos de apoio e nas comunidades terapêuticas.

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Saiba onde buscar ajuda para superar a dependência química

No mundo das drogas, os adolescentes estão mais vulneráveis que os adultos. O jovem Cles Pierre Rodrigues Sabino, 16 anos, está desparecido há quase dois meses. O garoto foi adotado ainda bebê por Agostinho dos Santos, um homem que tenta renovar todo dia a esperança de rever o filho. Em seis tentativas, ele conseguiu encontrar o rapaz dentro de um ponto de venda de droga, mas as últimas buscas resultaram em frustração.

O tráfico recruta jovens cada vez mais cedo. “O fato da punição para os adolescentes serem medidas sócio-educativas e o máximo de cumprimento da pena ser de apenas três anos faz com que os traficantes aproveitem essa pequena punição para recrutar os adolescentes mais cedo ao tráfico”, explica o delegado Tiago Uchôa.

A Polícia da Criança e do Adolescente apura suspeitas muito graves, que envolvem crianças exploradas pelo tráfico. “Denúncias de que nas comunidades pessoas oferecem drogas às crianças e adolescentes para conseguirem serviços sexuais, principalmente das meninas”, comenta o chefe da Unidade de Apoio da Gerência de Polícia da Criança e do Adolescente, Rinaldo Carvalho.

A Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos elabora ações para evitar que o crack avance ainda mais. “O Conselho Estadual sobre drogas vai fazer um levantamento para convocar as unidades que trabalham na recuperação desses jovens. Queremos conversar e saber o quer elas fazem e quais as contribuições do Estado para melhorar essas ações”, explica o secretário de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, Roldão Joaquim.

Grupos de Ajuda
Para as famílias que sofrem com a dependência dos filhos, netos e sobrinhos, a luta contra as drogas parece uma batalha perdida. No entanto, o pânico da impotência deve e pode ser trabalhado em grupos de ajuda aos parentes de dependentes químicos, como é o caso do projeto Amor Exigente, que há 12 anos tem uma unidade no Recife para atender aos casos de pais que não conseguem encontrar uma saída para os filhos.

Toda quarta-feira à noite, às 19h30, o grupo se encontra no colégio Vera Cruz, que fica no Parque Amorim, no Recife, para falar sobre o convívio com dependentes de drogas em casa. Rúbia Helena Goulart, coordenadora do Amor Exigente, está com o grupo desde quando percebeu que o filho havia perdido o controle sobre o vício.

Apesar da luta de Rúbia e do marido, a dependência ao crack foi mais forte: com apenas 15 anos, o filho do casal morreu vítima da droga. Maurício de Castro Goulart esteve internado para recuperação em São Paulo e voltou ao Recife para passar as festas de fim de ano. Na segunda-feira após o feriado, a foto do rapaz apareceu estampada em um jornal.

“Eu não vi essa foto até hoje. O meu marido escondeu o jornal pra que eu não visse. Não queria ver, porque eu já ia vê-lo no caixão”, comenta Rúbia Helena Goulart.

Os casos de pais que enterram os filhos não são pontuais. O advogado Valdemilson Farias também encontrou o filho de 20 anos morto em um matagal em Abreu e Lima. “Tudo começou com loló, depois cola de sapateiro, em seguida maconha, cocaína, e terminou no crack”, explica. O jovem estudava direito e trabalhava com o pai no escritório da família em Boa Viagem. De acordo com o advogado, nunca houve uma versão oficial para o fato. “Ele foi eliminado com dois tiros na cabeça”, comenta Valdemilson Farias.

Valdemilson e Shirlene Bakun Castro são voluntários no Amor Exigente. Ela também perdeu o filho, em julho deste ano. “No dia 31 de julho ele estava em casa e chegou um carro com três homens armados. Colocaram ele no carro e o levaram”, revela. O filho de Shirlene, Alexandre Antônio Castro, tinha 32 anos e era pai de dois filhos. Ele foi internado cinco vezes e o corpo foi achado na Zona Rural de Caruaru.

Shirlene testemunhou a luta do filho, que dependeu de drogas a maior parte da vida: dos 13 aos 32 anos de idade. “Ele dizia muitas vezes a mim: mãe eu quero sair dessa, eu quero viver com minha família, eu quero casar com minha mulher, viver com meus filhos uma vida normal, trabalhar, mas às vezes eu acho que ele não tinha muita força. Aí caía, recaía”, explica.

Muitos dos parentes das pessoas que freqüentam o projeto Amor Exigente estão com os filhos, filhas ou maridos, vivos. O advogado Valdemilson Farias lembra que para vencer a dependência ao vício é preciso amar acima de tudo. “Sempre digo aos pais que tenham filhos dependentes de drogas: nunca desistam dos seus filhos, nunca, porque se vocês desistirem, com certeza o traficante o adotará”.

Para quem, neste momento, se sente sem forças para virar o placar do jogo contra as drogas, o administrador da comunidade terapêutica, Fabrício Selbmann, lembra que essa batalha não é uma luta perdida. Ele próprio foi dependente e, hoje, coordena a comunidade Recanto Paz.

“O lema é: só por hoje eu não vou usar. Só por hoje, porque hoje, 24h, é o que eu posso modificar. Eu não posso modificar o meu passado, eu não posso modificar o meu futuro. O passado é uma história e o futuro está nas mãos de Deus. O que eu posso modificar é hoje, então, só por hoje eu vou tentar modificar meus atos para ter uma vida melhor”, comenta Fabrício.

SERVIÇO
Disque Denúncia da Gerência da Polícia da Criança e do Adolescente
Contato: 3184.3579

Amor Exigente – bairro das Graças, Recife
Contato: 9252.3186

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